sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ENTREVISTA DE MANUEL LUÍS GOUCHA E CRISTINA FERREIRA À REVISTA NOTÍCIAS TV

  
É possível fazer uma entrevista a sério com a dupla que lidera as manhãs televisivas em Portugal? É possível, mas não é fácil. Não se calam um minuto, interrompem-se a cada dez segundos, transformam qualquer pergunta respeitável numa gargalhada. Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira são assim mas são felizes. Assumem-se palhaços, mas garantem não ser papagaios que debitam o que os outros escrevem para si. Dizem que o "Você na TV!" é um parque de diversões de onde não querem sair nunca. Talvez por isso tenham aceitado esta produção para a Notícias TV. Louca, completamente louca. É Natal, ninguém leva a mal. 

NTV - Há três semanas, a Notícias TV chamou-vos palhaços e dissemos que o vosso programa era uma discoteca para reformados. E, mesmo assim, vocês ainda falam connosco?
MLG - Adorámos. Nós somos, de facto, uns palhaços. E tal como diz, somos os melhores deste circo televisivo. E porque a definição de discoteca para reformados tem, de facto, muito a ver com aquele programa.
CF - A discoteca é por definição o sítio onde as pessoas se vão divertir, se vão libertar, onde vão viver algumas emoções que não conseguem viver durante o dia.
MLG - A maior parte do nosso público é reformado. Portanto, o Joel Neto tinha toda a razão. Um abraço, Joel (aos gritos, a falar para o gravador).

NTV - Ao final de sete anos em parceria, nas manhãs da TVI, como é que ainda se aturam um ao outro?
CF - (gargalhada) Foge, sei lá!
MLG - É incrível, não é? Nunca tivemos uma beliscadura, o que seria completamente natural.
CF - Eu acho que nós percebemos desde o início que cada um teria de ter o seu espaço dentro da dupla e que teríamos papéis diferentes na nossa parceria. E isso foi assumido logo desde o início.

NTV - E essas regras foram espontâneas ou foi preciso marcar território?
CF - Ainda hoje limamos coisas na nossa parceria, mas houve uma regra que me foi imposta logo no início, que foi tratar o Manuel Luís Goucha por tu, coisa que a mim me fazia muita confusão. Para mim, ele era o senhor Goucha da televisão. Isso foi muito complicado. Mas a partir do momento em que o consegui tratar por tu, tudo foi mais fácil. Hoje digo-lhe qualquer coisa com a maior cara de pau (gargalhada).
MLG - Sim, és uma abusadora (risos). O que a mim me impressiona é que nós não combinamos nada um com o outro. Estamos em plena conversa e sai-nos a mesma frase, ao mesmo tempo, com a mesma ênfase dos dois. Isso é fantástico.

NTV - Mas são muito diferentes...
MLG - Muito diferentes, até na forma de abordamos a mesma história. Temos perspectivas diferentes da vida, gostos diferentes, ideais diferentes. Mas há aqui uma enorme cumplicidade. Um completa o outro.
CF - Nós não precisamos de perguntar nada um ao outro. Nada. Sabemos para onde vamos e sabemos qual é o caminho. A partir do momento em que há um gesto ou uma pergunta, sabemos onde é que o outro quer chegar. Depois é só alinhar. É entrar no jogo e seguir em frente. Mas não é uma coisa fácil.

NTV - Para si, Manuel Luís, uma coisa que não era fácil era dividir protagonismo, partilhar o palco. Reconheceu isso mesmo no final da sua passagem pela "Praça da Alegria", com Sónia Araújo. Hoje é mais fácil?
MLG - É, mas isso também tem a ver com a forma como a Cristina chega à minha vida. A Cristina não chega para ser minha assistente. Ela chega para ser minha parceira. E eu que tinha feito um percurso a brilhar sozinho, digamos assim, percebi naquele dia que o programa só funcionava se fosse a dois. Quando a Júlia, naquele dia, há sete anos, me disse "isto é para ser uma dupla", eu percebi que tinha de ser assim. Repare, eu vinha de dois anos de travessia no deserto, com o "Olá Portugal".

NTV - Travessia no deserto porquê?
MLG - Porque as pessoas não entendem a mudança. Eu tinha estado muitos anos na manhã da RTP. E não é fácil mudar. Não se pense que um apresentador carismático muda de canal e o público, o seu público, vem todo atrás. Não é assim. E durante dois anos, no "Olá Portugal", eu percebi que era assim. A própria Júlia Pinheiro está a sentir isso agora na SIC. As pessoas não entendem isto. O nosso tipo de profissão é feito de projectos, de desafios. Mas o espectador não entende isso.

NTV - Como é que vocês se conheceram?
MLG - Foi na Universidade Independente. Eu estive lá nuns cursos a falar de televisão e a Cristina estava lá a fazer esse curso.
CF - E eu fui uma parva, virei-me para o Manel e disse-lhe: "um dia ainda vamos trabalhar juntos" (gargalhada)...
MLG - E eu pensei "olha para esta maluca, coitada. Era só o que faltava, ir trabalhar com esta fedelha" (risos). Ela agora já pode dizer-me qualquer coisa, que eu acredito em tudo. Se ela me disser um dia que vai ser directora de programas, eu acredito. Só direi: "eu não quero cá estar nesse dia" (gargalhada). Mas voltando ao arranque, no dia em que Júlia Pinheiro me disse que ia trabalhar com uma parceira para fazer uma dupla, eu pensei que só faria sentido como uma dupla verdadeira. 

NTV - E essa aprendizagem foi pacífica?
MLG - Muito pacífica.

NTV - Você é um homem vaidoso...
MLG - Eu sou um homem vaidoso, ela é uma mulher vaidosa, como qualquer pessoa que esteja nesta vida é vaidosa. Esta é uma profissão de ego. Mas há uma coisa que eu lhe digo sinceramente: isto não foi uma questão de vaidade. Foram anos e anos a trabalhar sozinho. Eu era, efectivamente, protagonista da "Praça da Alegria". Demorei 500 programas para me assumir como apresentador. Porque durante 500 programas eu era o cozinheiro da televisão. A partir do momento em que me assumi como apresentador, ainda por cima dos bons, não tenho mais nada para provar a ninguém, a não ser a mim próprio.

NTV - Esse estigma do cozinheiro pesou muito?
MLG - Não foi estigma nenhum. Isso até é ofensivo para os grandes artistas da culinária. Eu usei foi a culinária, nomeadamente a doçaria portuguesa, para fazer um programa para miúdos, que foi um sucesso durante anos. Era a minha forma de comunicar. Eu entrei na televisão pela porta da cozinha mas estou agora no salão principal (risos).

NTV - Quando a Cristina o via na TV, o que é que achava?
CF - Sempre adorei televisão. Eu sou da geração deste programa que o Manuel falava, o "Sebastião Come Tudo". Mas eu sempre adorei televisão, embora durante muito tempo não fizesse ideia de que era isto que queria fazer. Só a partir do momento em que tirei Ciências da Comunicação e depois tirei o curso de televisão na Independente, é que eu achei que era isto que queria fazer.

NTV - Não me diga que também tirou o curso ao domingo...
CF - (gargalhada) Não, não tirei ao domingo. Tirei durante toda a semana e à noite. Eu via o Manel desde miúda, porque eu era agarrada à televisão e na altura não tínhamos assim tantos divertimentos como temos agora. Mais tarde, durante o curso, foi-me feita a proposta de fazer uma entrevista ao Manel. E eu nesse dia percebi que conhecia o Manel e não precisava de o estudar, porque durante anos eu tinha conhecido aquela pessoa, que durante anos me aparecia lá em casa via televisão.

NTV - E o que é que sentiu quando lhe disseram "vais trabalhar com o Manuel Luís Goucha"?
CF - Fiquei petrificada. E perguntei: "para fazer o quê?" Eu não queria ser a boneca do Goucha. Não queria ser a menina que ajudava o protagonista em alguns momentos. Não queria ser um bibelô. E disse que isso não queria. E o que a Júlia me disse é que não, era para ser a colega do Manel. E a partir desse momento, eu encarei esse desafio. Acho que deu certo porque eu desmanchei o Manel desde o primeiro dia.

NTV - Como assim?
CF - Porque ele, acima de tudo, gosta de se divertir em televisão. E a partir do momento em que a fedelha, que lhe tinha dito um ano antes que ainda íamos trabalhar juntos, conseguiu pô-lo a rir desalmadamente, porque o desconstrói, porque o desmancha, isto tornou-se o sucesso que tem sido. E ele, quando isso aconteceu, sentiu que tinha entrado no parque de diversões.
MLG - Um parque de diversões (risos). É exactamente onde eu me sinto, num parque de diversões.

NTV - Mas alguma vez pensou, no início, e sendo esta a sua primeira experiência televisiva de peso, que se isto corresse mal, era um péssimo cartão de visita para a sua carreira?
CF - Não, não pensei.
MLG - Mas se isto corresse mal, era um péssimo cartão de visita para os dois.

NTV - Sim, mas o Manuel já tinha uma carreira na altura. A Cristina não...
MLG - Isso das carreiras tem muito que se lhe diga. As coisas estão sempre a começar.
CF - Foi a Júlia que me escolheu para este papel, foi a Júlia que disse ao José Eduardo Moniz que achava que eu tinha perfil para fazer isto com o Goucha. Porque eu tinha trabalhado com a Júlia no "Diário da Manhã". E quando eu entro no gabinete do Moniz, ele diz-me: "Este projecto, o "Você na TV!", é para ganhar!". Assim, friamente, directamente. E eu calei-me, e não lhe disse nada. Passados uns anos, quando nós já éramos líderes, eu fui lá. E disse-lhe: "Era para ganhar, não era? Está ganho".
MLG - É preciso continuar a ganhar, porque isto é uma batalha diária.

NTV - O público da manhã é conservador...
MLG - Não só, mas também.

NTV - Sim, mas na sua maioria é conservador, é constituído por gente mais velha, reformados, donas de casa. Poder-se-ia pensar que para um público destes fosse recomendável um programa também ele mais conservador. Mas o vosso é completamente louco. Cada dia fazem um disparate diferente.
MLG - Mas dentro do público da manhã há muita diversidade. E, muito francamente, acho que o mais conservador de todos, sem qualquer sentido pejorativo, é capaz de estar ainda na RTP.
CF - Atenção, Nuno, não são os reformados que têm Facebook. E nós temos mais de 250 mil pessoas que nos seguem diariamente.
MLG - Nós temos 500 mil amigos no Facebook. Eu 250 mil e ela outros 250 mil.
CF - O público das manhãs já não será o daquelas senhoras acima dos 65 anos.
MLG - Esse também lá está, claro, mas também há gente de 30, de 40. Há jovens que não têm aulas de manhã, há muita gente nova desempregada. O que eu acho é que mesmo o público conservador tem-se divertido connosco.
CF - Acima de tudo, penso que o público, independentemente das suas idades, reconhece a verdade e não gosta de fingimentos. E desde o primeiro dia nós mostrámos que não estávamos ali a fingir. E é por isso que, mesmo com a "Casa dos Segredos" no ar, nós dizemos tudo aquilo que nos apetece. Se nós não gostamos de um concorrente, dizemos. Se nós torcemos por um ou por outro, dizemos. Porque somos público também. As pessoas reconhecem essa verdade em nós e, além disso, nunca sabem o que podem esperar de nós na manhã seguinte. Para mim, a surpresa sempre foi o maior ingrediente da televisão.
MLG - E o divertimento proporciona às pessoas a faculdade que elas podem ter de se rir com elas próprias. Como sabe, as pessoas levam-se muito a sério. E a vida também está para ser levada muito a sério. Mas eu penso que temos de aligeirar. É essa dinâmica que transparece através das mensagens que recebemos ali, em directo, ao vivo, através da Internet. E muitas vezes a dizerem mal de nós. Muitas vezes a insultarem-nos.
CF - Mas nós adoramos responder.
MLG - Adoramos. Nós damo-nos ao trabalho de responder a todos.

NTV - Vêem-se a sair deste parque de diversões?
MLG - Eu sei que tenho mais três anos pela frente de parque de diversões, porque a isso me obriga o contrato (risos). Claro que os contratos são o que são e eu um dia hei-de sair do parque de diversões. Mas enquanto eu conseguir conciliar o parque de diversões com uma coisa mais séria, fico muito contente. Não ligo a signos, mas o Capricórnio rejuvenesce com a idade (gargalhada). Logo, eu vou morrer assim, a divertir-me. Porque eu já fui velho. Quando tinha dez ou 15 anos, eu era velho. Eu divirto-me imenso. Sou felicíssimo a fazer aquele programa.

NTV - A necessidade de fazer, depois, programas de conversa mais séria na TVI 24, como o "De Homem para Homem", ou o "Controversos", servem para equilibrar o seu bioritmo?
MLG - Não, não era necessidade nenhuma. Eu gosto de conversar e sempre gostei, enquanto miúdo, de ver programas de conversa em televisão. Perdeu-se esse espaço. Lembro-me do José Mensurado, que morreu ainda agora, no "Frente a Frente". Foi dos primeiros programas de conversa que me lembro. Recordo-me de conversas maravilhosas. Depois tivemos, anos mais tarde, o mestre, o Carlos Cruz. E quando era miúdo, brincava com um ser imaginário com quem tinha conversas longuíssimas, a olhar para o televisor como se fosse uma câmara. Sempre desejei ter em televisão um espaço de conversa pura e dura. Portanto, surgiu a oportunidade, agarrei-a com unhas e dentes e também deu certo. Uma coisa não invalida a outra, são públicos diferentes.

NTV - Ainda há pouco, quando fazia aquelas poses loucas para a produção fotográfica que acompanha esta entrevista, dizia "não sei como é que ainda há gente que aceita ser entrevistada por mim ao domingo, depois de todas estas palhaçadas". Isso preocupa-o?
MLG - Não, nada. É uma brincadeira. Digo-o muita vez no ar. Um apresentador tem registos muito diferentes. Quando nós estávamos à noite a fazer "Uma Canção para Ti", o nosso registo era completamente diferente. Quando a Cristina fazia "As Tardes da Júlia" à tarde, tinha um registo diferente. São sempre verdadeiros, mas são registos diferentes, porque o público é diferente. Porque para mim todos os horários são nobres. A noite, a tarde, a manhã...

NTV - Que ideia é que acha que os portugueses têm de si?
MLG - Não faço a mínima ideia, nem me interessa. Porque qualquer ideia que tenham de mim nunca é a verdadeira. Cem pessoas que me vejam a mim e à Cristina de manhã farão cem leituras diferentes da minha personalidade. Nenhuma delas corresponde inteiramente à verdade. Eu sou muito de muita coisa (gargalhada).

NTV - E a Cristina, que leitura é que acha que os portugueses fazem de si?
CF - Acho que nunca confessei isto. Durante muito tempo senti alguma dificuldade em me afirmar. Eu estava ali a crescer, mas sabia que não queria ser a boneca do Goucha. Mas durante muito tempo senti alguma dificuldade em encontrar o meu espaço. E o Manel nisso foi sempre muito meu amigo, porque quando as pessoas diziam "ah, o programa do Goucha", ele respondia sempre "o programa do Goucha e da Cristina".
MLG - Com certeza, só assim é que faz sentido.
CF - Sim, mas nós olhávamos para a televisão e a mancha Goucha era muito maior do que a mancha Cristina, nos primeiros tempos. Fazer com que a mancha Cristina crescesse, para ficarmos lado a lado, era um objectivo.

NTV - Às vezes é o Goucha... o boneco da Cristina.
MLG - (gargalhadas) Pois sou, pois sou. Mas as pessoas já nos querem como dupla. Tanto que já há muita gente que nos diz que o programa não é a mesma coisa quando está só um.
CF - O problema agora é esse. Que as pessoas não nos vejam só como dupla.
MLG - Sim, porque eu quero continuar a fazer programas de conversa e a Cristina tem também que voar sozinha. Eu sou um grande profissional que leva a televisão muito a sério. Porque é a minha vida. Eu descurei muita coisa da minha vida, a nível social e pessoal, porque só me dedico à televisão. Portanto, eu só quero que as pessoas reconheçam a minha seriedade. Podem não gostar do estilo, mas se reconhecerem a minha seriedade enquanto profissional, já lhes fico muito grato.

NTV - E como é ter a Júlia Pinheiro, que foi a vossa madrinha, digamos assim, do outro lado?
CF - Ela não está do outro lado. Recusamo-nos a ver as coisas desse prisma.
MLG - Adoramos a Júlia. Adoramos.

NTV - Mas ela está do outro lado, de facto. Vocês na TVI, ela na SIC. Qual é a sensação de lhe ganhar todos os dias?
CF - Eu não sinto que estou a ganhar à Júlia. A sério. Não digo isto por favor. É o que sinto. Odiámos a ideia de ter a Júlia como adversária. No dia em que soubemos oficialmente que ela ia para a SIC, foi difícil. Nós não a queríamos no mesmo horário. É-nos indiferente que ela um dia venha a ganhar. A televisão é feita de ciclos e, inevitavelmente, daqui a uns tempos são os anos da Júlia. E estaremos em segundo ou em terceiro, o que tiver de ser. Mas isto é real: eu nunca sinto que estou a tentar ganhar à Júlia. O que eu penso é que estou a ganhar à RTP e à SIC, mas não aos rostos que lá estão.

NTV - É uma forma de defesa?
CF - Chame-lhe o que quiser. Eu nunca na vida vou combater a Júlia. Porque ela andou de mão dada comigo durante muito tempo. Não posso agora nem empurrá-la nem andar à frente dela (pausa).
MLG - Eu não faço televisão contra ninguém. Nunca fiz, não era agora que ia fazer. A Cristina ainda vibra muito com as audiências e tal, eu já não.
CF - Vibras, sim senhor. Tu também, tu também...
MLG - Não. A luta é muito curiosa. Quando às nove da manhã vimos as audiências do programa da véspera, já é passado. Já vem aí um novo programa para fazer e para tentar ganhar. Vai começar tudo de novo. É um bocado cruel. Por isso é que temos de ser muito criativos. Em tempo de crise ainda mais.
CF - As pessoas já estão lá à espera. Nós já estamos instalados. Há quem cruze os braços na altura das vitórias. Connosco é ao contrário. É na altura das vitórias que arregaçamos mais as mangas.
MLG - Mas temos consciência que este ano está a ser absolutamente fantástico. Já levamos vitórias em mais de 200 manhãs. É claro que vamos vencer destacados. Mas a partir de 2 de Janeiro começa tudo de novo.
CF - Aliás, nós costumamos brincar em equipa, dizendo "vamos lá começar a prepararmo-nos para quando isto começar a baixar". Ninguém gosta de ter 40% de share e depois começar a cair para os 30, depois para os 20. Ninguém gosta. Se nos prepararmos para isso, será muito mais fácil encarar esse momento.

NTV - Ainda na semana passada, na Notícias TV, Júlia Pinheiro disse que já está a morder os calcanhares à "Praça da Alegria" e que, quando tiver a Praça dominada, vai começar o ataque aos amigos Manel e Cristina...
MLG - Pois, nós vimos. Ela até pode querer morder-nos os calcanhares. Mas eu vou já comprar uma armadura para ela ferrar os dentes (gargalhadas). A Júlia tem uma postura sempre muito interessante que é o facto de ser aguerrida. Ela é uma guerreira de televisão, é líder de equipas e é importante ter esse espírito. Mas ela que se prepare: deste lado não estamos cá para fazer a vida fácil a ninguém. E nós também vamos lutar para ganhar.
CF - Mas ela que venha (gargalhadas).

NTV - 2012 vai ser um ano muito diferente? Como é que a crise vai afectar o negócio?
CF - Vai, sobretudo, na forma como as pessoas encaram as coisas. E isso a mim deprime-me muito e faz-me confusão. (E baixa a voz)... Estamos em crise, vamos ser todos muito pobrezinhos, vamos comer todos muito pouco, não vamos comprar nada, porque o mundo não está para luxos. Mas a vida continua. Há os que podem ter luxos, há os que podem continuar a ter banquetes e há aqueles que não podem e que nunca puderam.

NTV - Mas há uns que podiam ter alguns e que, provavelmente, não poderão voltar a ter...
CF - Mas a televisão é brilho. As pessoas têm de meter isso na cabeça. Vou dar-lhe um exemplo. Aqui há tempos, para brincarmos com o Tony Carreira, que é bom na cozinha, oferecemos-lhe um trem de cozinha. Bem, recebemos não sei quantas mensagens no Facebook a dizer "Que vergonha! Onde é que já se viu? O Tony Carreira, que não precisa de trem de cozinha nenhum, que tem dinheiro para comprar outro, a receber uma prenda destas. Quando há pessoas que não têm uma panela para fazer uma sopa". Isto não se compreende. É gente que está de mal com a vida. Assusta-me a ideia de os portugueses acharem que, se isto está tão mal, o melhor é fecharmo-nos todos em casa à espera que a crise passe. Não, temos é de sair para a rua. Esta é que é a fase do sair, do abrir negócios, de arregaçar as mangas. Este é um período de renovação e seguir em frente.
MLG - Isto está a acontecer connosco, de resto. A crise também chegou às televisões, há cortes orçamentais. Temos de ser mais criativos. É sabido que vamos acabar com algumas rubricas, por razões orçamentais, como é o caso da rubrica da Lili Caneças, da Cinha Jardim e do Flávio Furtado. Como é óbvio, não vamos deixar de fazer comentários à imprensa cor-de-rosa, portanto vamos ter de arranjar outra forma, com outros comentadores que não são fixos, sei lá. É preciso mais imaginação.
CF - Temos de ter mais trabalho.
MLG - Eu só temo é uma coisa. Acho que a sociedade está a tornar-se muito crispada. Anda meio mundo a ver as meias lavadas do outro. Muitas vezes caímos na demagogia. As pessoas que fazem comentários como aqueles do trem de cozinha não se podem esquecer que se há programa de televisão que com todo o gosto ajuda pessoas, procura amaciar o dia das pessoas e tenta resolver problemas às pessoas, desde consultas a implantes e mais sei lá o quê, é o "Você na TV!". Não nos acusem de não estarmos atentos à realidade. Estamos e estamos muito. E essa não é a função da televisão, mas esse é o caminho do nosso programa, que é tentar minimizar os problemas das pessoas e dar-lhes muita alegria. E cada vez mais alegria.

NTV - Os cortes são muito severos?
CF - Isso não sabemos. Sabemos é que algumas boas ideias são caras e nós vamos ter de cortar.
MLG - Fazer televisão é caro. E custa dinheiro.

NTV - E é possível fazer uma televisão de brilho sem dinheiro?
CF - Não se têm lâmpadas, têm-se velas. E as velas iluminam também. Estamos todos no mesmo. RTP, SIC e TVI. Neste ano é que vamos ver quem é que consegue pôr mais velas no plateau.

NTV - Muito bem, já sei que vem aí gargalhada, mas... quais são os vossos limites?
MLG - Para mim é o céu (gargalhada). Eu acho que às vezes nós ultrapassamos os limites. Enfim, estamos ali, naquela linha ténue. Estamos a resvalar. E acho que algumas vezes já resvalámos.
CF - Sim, às vezes estamos à beira do precipício, mas eu puxo-te (risos). É o perigo. O perigo...
MLG - O perigo...
CF - ... de nos sentirmos em casa.
MLG - Exactamente, eu ia dizer exactamente isso. O perigo de nos sentirmos em casa. Está a ver? Aqui está. Ao mesmo tempo, os dois dissemos a mesma frase. Isto acontece-nos todos os dias (risos).
CF - É, eu acho que esse é o maior perigo, é estarmos ali todos muito à vontade. Todos nós temos uma vida, temos amigos, dizemos barbaridades, temos palavras que usamos quando estamos com amigos. E estarmos à vontadinha quer dizer que pode sair-nos uma palavrinha (risos). E nós não nos podemos esquecer que estamos num programa de televisão.
MLG - É, eu acho que essa é a nossa maior dificuldade. Até onde é que nós vamos, ai meu Deus, ai meu Deus? Nós estamos no ar e estamos a falar com a régie, com o realizador, com a senhora que está a limpar o chão, estamos a responder no Facebook.
CF - É como se estivéssemos no café. Estamos ali como numa conversa de café. É muito natural.
MLG - Nós somos muito felizes a fazer aquilo. Somos muito felizes na televisão. A televisão é o nosso parque de diversões. Levamos muito a sério aquilo, mas é o parque de diversões.
CF - Mas sempre a sério, porque esta é a nossa vida, é a nossa profissão, é o nosso emprego. E nós trabalhamos muito. As pessoas pensam que nós chegamos ali, abrimos a boca às dez e à uma vamos embora e o trabalho está feito. Não, dá-nos muito trabalho. Muito mesmo.

NTV - Não é um part time muito bem pago...
MLG - Não, não é. Há reuniões, há muita coisa a preparar. Há dias em que trabalho 12 horas. Há peças para fazer no exterior.
CF - Lemos muitos livros. As pessoas não fazem ideia. Mas ninguém vai ao "Você na TV!" apresentar um livro que nós não tenhamos lido na véspera.
MLG - De ponta a ponta. Lê ela e leio eu. Não há ninguém a fazer sinopses para nós.
CF - Aliás, se alguém se atreve a pôr-nos perguntas para nós fazermos ao convidado, nós refilamos.
MLG - Nós refilamos por tudo e por nada (risos).
CF - (risos) Eu acho que é um bocadinho difícil trabalhar connosco. É preciso aprender a trabalhar com o Goucha e com a Cristina. E estamos numa fase em que todos já sabemos como é que cada um trabalha e reage. Nunca é para ferir ninguém. Mas há dias em que chegamos lá enervadíssimos, porque aconteceu alguma coisa que não devia ter acontecido, e gritamos, esperneamos...
MLG - Eu não admito que alguém me mande fazer uma pergunta pelo auricular. Não admito que me encomendem perguntas. Não sou um apresentador-papagaio. Nunca fui.
CF - Eu sentir-me-ia mal se alguém fizesse o trabalho por mim. Nunca o fizeram.
MLG - Nós nem temos cá teleponto.

NTV - A TV portuguesa tem muitos papagaios?
MLG - Tem, tem. Cada vez tem mais. Há uma geração de papagaios. Quando os críticos dizem bem de algum papagaio estão a ofender toda uma geração que não era papagaio.

NTV - Mas quem é que são os papagaios?
MLG - São aqueles apresentadores que têm as perguntas todas feitas no cartão. São as pessoas que lêem o teleponto todo. Atenção, não estou a falar de pivôs de telejornal. Estou a falar de apresentadores de entretenimento, que não prepararam nada em casa, que lhes prepararam tudo.
CF - Mas depois a meio da conversa nota-se. O público não é parvo. A ideia de que o público é uma massa amorfa que não nota nada é muito errada. O público percebe.
MLG - Há mais apresentadoras-papagaio do que apresentadores, até porque há menos homens na televisão. Mas eu sei do que estou a falar: quando um crítico diz bem de uma apresentadora-papagaio só porque ela é gira, eu sinto que estão a ofender uma classe que está para trás de mim. Júlio Isidro, Joaquim Letria, Carlos Cruz, esses todos...
CF - De uma Júlia Pinheiro, por exemplo, que se prepara para tudo o que faz.
MLG - De uma Teresa Guilherme, que se prepara à exaustão. Ela usa teleponto, mas é ela que escreve o que vai dizer. Estou a falar da nova geração.
CF - É a geração do deslumbre da televisão. Eu podia estar nessa geração. Tenho 34 anos e nasci para a televisão na geração do deslumbre. Mas nunca foi esse o meu entendimento. Há quem goste de fazer televisão só para aparecer no ecrã. A mim podiam cortar-me a cabeça. O que é importante para mim é passar a mensagem, é tirar de um convidado o que quero tirar. Por isso é que nós não temos problema nenhum com o ridículo. Nem em parecer mal. O que nos interessa a nós são as emoções que nós conseguimos transmitir em televisão.

NTV - Provavelmente, não haveria muitos apresentadores que se disponibilizariam para as palhaçadas que vocês fizeram aqui...
CF - Mas isso é um bocadinho de nós.
MLG - Isto que fizemos aqui faz parte do parque de diversões. Nós não somos só isto. Somos capazes de fazer muita coisa.

NTV - Reality shows. Eram capazes de fazer?
MLG - Não é a minha praia. Mas se nós dizemos o que dizemos da "Casa dos Segredos" no programa, se fôssemos os dois a apresentar, seria uma coisa linda (gargalhada).
CF - Para fazer uma "Casa dos Segredos", é preciso ser psicólogo. E nisso há que tirar o chapéu à Teresa Guilherme. Ela é de longe a melhor neste registo. Ela leva-os a dizer tudo.

NTV - Mas não vos seduz apresentar um formato daqueles?
MLG - A mim não. Passo.
CF - A mim seduz-me tudo o que é televisão. É para fazer um reality show, 'bora lá. É para fazer um programa na rua, vamos lá. É para fazer um talk show, siga. Mas sempre no meu melhor, seja o que for, darei sempre o máximo. Sempre que eu sentir que é para evoluir, para crescer, eu farei.

NTV - Mas tem um sonho?
CF - Não. Não tenho. Por acaso, não tenho. Tenho muita coisa que gostaria de fazer, mas não tenho um sonho. Eu admiro a Júlia porque nós já a vimos a fazer tudo. Tudo. Consegue-me dizer alguma coisa que ela tenha feito muito mal? Não consegue. Eu não quero ser como a Júlia, mas admiro-a muito.

NTV - Pois, mas a Júlia agora está na SIC. E vamos lá arrumar esta história de vez: vocês foram ou não foram sondados pela SIC?
MLG - (assobia) Eu só falo na presença do meu advogado (gargalhada).
CF - Eu não posso contrariar uma coisa agora que já foi assumida por uma das partes. Não posso agora dizer que não fui.

NTV - E o Manuel também foi?
MLG - Só falo na presença do meu advogado. Ele já chegou? Não? Então não falo (gargalhadas).

NTV - Mas pelo menos conversas houve. O que vos levou a não aceitar?
CF - A TVI é a nossa casa. Sou muito sincera. A vida é muito curiosa. Na altura, o que me fez ficar foi a Júlia, a Gabriela Sobral. Agora estão na SIC.
MLG - Aliás, acho que mais duas, três semanas, e tu terias ido. Foi uma questão de timing.
CF - Elas estavam cá e isso para mim fazia toda a diferença. E eu fiquei. Passado pouco tempo elas foram para lá.

NTV - E se a Cristina tem ido, Manuel, como teria sido consigo?
MLG - Então, eu ia no pacote, tinha de ser (gargalhadas). Nem coloquei essa hipótese. Um dia vamos ter de nos separar, eu sei. Mas imagine o que era eu a trabalhar de manhã na TVI e a Cristina na SIC, também de manhã. Era estranho. Ainda era pior do que ter a Júlia. Chiça!
CF - Eu sofro um bocadinho por antecipação. Eu tenho já saudades do tempo em que já não vou estar com o Manel. Aquilo que eu consigo com ele naquelas três horas já não vou conseguir com mais ninguém.
MLG - Nem eu.
CF - Há uma coisa que eu, a partir daqui, vou impor em próximos projectos: duplas diárias na minha vida, nunca mais. Já tivemos a dupla perfeita, tudo o que vier a seguir será pior. Podem existir duplas esporádicas, isso sim, mas diariamente, não. O Manel faz-me muita falta na minha vida. E saber isso de antemão deixa-me triste.
MLG - Ai filha, estou quase a chorar.

NTV - Por falar em choro e afectos, a exposição pública da vossa vida privada é o pior deste mundo de luzes?
MLG - Para mim, é-me indiferente, mas ela tem sido massacrada.
CF - Sinto que 2011 (o ano das notícias sobre a separação de Cristina Ferreira) foi o mais negro da minha vida. Já vivi o lado mais negro de ser figura pública. Pior é impossível. Estou cá, não estou? Então a partir de agora, ninguém me vai beliscar. Mas devo confessar que doeu. Doeu muito. A partir de certa altura, eu disse para mim: "A partir de agora, ninguém mais me magoa. Podem dizer o que quiserem, escrever o que entenderem, mentirem como conseguirem, eu não sou aquilo". Essa mudança não foi fácil em mim, sofri muito. Mas agora estou pronta. Venha o que vier, não me deita abaixo.
MLG - No meu caso, no final do ano passado, não foi também muito agradável para mim, por causa do restaurante e com capas de revista cheias de mentiras. Não me vou abaixo com mentiras. Irritam-me, mas não vou abaixo.
CF - A mim só me magoam quando metem ao barulho pessoas que não escolheram a profissão que eu escolhi. Portanto, não têm de estar ali. E isso magoa-me um bocado. E acho triste a forma como muitos directores de revista, melhor dizendo directoras de revistas, trabalham em Portugal. Eu sei que são poucas as directoras de revistas em Portugal. E são menos ainda as directoras que acumulam duas revistas. Essas têm de ser castigadas.
MLG - Eu também acho horrível que certos directores de revista inventem capas. Mas para esses, se voltar a acontecer, tenho uma ideia fabulosa com a qual me vou divertir muito.

NTV - Este é o último mandato de Fernando Seara como presidente da Câmara de Sintra...
MLG - (gargalhada). Pois é, pois é...

NTV - Não sei porque se está a rir. Há dez anos disse-me que gostaria de ser presidente da Câmara de Sintra. É a hora?
CF - Não é nada a hora porque eu ainda não estou preparada (gargalhada).
MLG - Eu sempre encarei o lado autarca na perspectiva de ajudar a resolver problemas das pessoas. Como fazemos no programa da manhã. Nunca gostaria de ser ministro porque nunca se resolve nada a curto prazo. Como autarca posso ajudar a resolver problemas das pessoas a curto ou médio prazo. O Seara vai sair daqui a três anos, e eu acho ainda muito cedo para mim.
CF - Não tenho a roupa preparada, nem penses.

NTV - Mas vai ser vice-presidente do Goucha?
CF - Vice-presidente, eu? Vou ser a primeira dama. Ele não será presidente da Câmara de Sintra sem eu andar de coche. Nem pensar.
MLG - Ainda não é o tempo. Mas o próximo que for arrisca-se a ficar lá 12 anos e depois já serei muito velho. Olhe, não sei (gargalhadas).

NTV - E a si, Cristina, a política não a seduz?
MLG - Seduz, seduz. Ela também quer ser presidente (risos).
CF - Mas ainda sou muito nova, tenho muito que fazer em televisão. Mas é uma coisa para o fim da minha vida. Mas está muito longe.

NTV - Amanhã é a noite de Natal. Qual é o presente perfeito para a Cristina, Manuel?
CF - Ele não dá (gargalhada).
MLG - Se eu tivesse de escolher o presente de Natal perfeito para a Cristina? Era o lugar de directora de programas de uma estação de televisão.

NTV - Mas sem si lá nessa estação, certo?
MLG - Porra! (gargalhada).
CF - Não, não, tu ias estar ali ao lado, no gabinete ao lado.
MLG - No gabinete ao lado? Está a ver como ela é. Não aguento. Eu queria era pôr-me a milhas. A mim é que não me apanhas mais (gargalhadas).

NTV - E qual era o seu presente perfeito para o Goucha?
CF - Ai, agora sou eu?

NTV - Claro...
CF - Já lhe dei algumas coisas divertidas. É dos homens a quem é mais difícil dar presentes. Porque ele tem tudo, tem um gosto muito especial e há coisas ainda que eu não percebi na sensibilidade dele se ele gosta ou se não gosta. O sonho dele é ir à Lapónia. Dei-lhe um Pai Natal de chocolate e disse-lhe "já tens o Pai Natal, agora compra a viagem e vai à Lapónia".
MLG - E eu comi o Pai Natal. Fiquei sem viagem e sem Pai Natal (risos).
CF - Deixe cá pensar. Um presente para o Manuel? Acho que lhe dava brilho até ao fim. Faz parte dele. É um homem brilhante.

fonte: Notícias TV

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